“Um Homem seguro de si é um ente morto.”
“Só posso observar-me em relação, porque a vida é toda de relação.”
“Não posso existir sozinho.”
“Só existo em relação com pessoas, coisas e idéias e, estudando minha relação com as pessoas e coisas exteriores, assim como com as interiores, começo a compreender a mim mesmo. Qualquer outra forma de compreensão é mera abstração e não posso estudar-me abstratamente; não sou uma entidade abstrata; por conseguinte, tenho de estudar-me na realidade concreta – assim como sou, não como desejo ser.”
A lembrança mais antiga que eu tenho é a de estar sendo carregado no colo de alguém, deitado entre os braços que me envolviam, entrando numa sala de uma maternidade. Como provavelmente, com essa idade, eu mal enxergava dois palmos à frente do meu nariz, provavelmente ela é falsa. O que me leva à segunda na escala de tempo, quando eu tinha pouco menos de 2 anos de idade e tinha recém operado a fimose, estava no colo de alguém, com uma barra-pirulito nas mãos, vermelha com estrias espiraladas na lateral, em azul.
Só isso podia representar todo o meu passado: sem saber se é real ou não, sempre dependendo das pessoas para ficar em pé, sendo mutilado e ganhando doces de segunda categoria enquanto assistia à tudo com indiferenca.
Mas é mentira. A Barra-Pirulito era muito boa sim. Aprendi a ficar em pé, a cair, me arrastar, rastejar, levantar. Acho que só nao aprendi a voar, nunca tentei. Também não fui mutilado.
Bom, ainda não tenho certeza quanto ao “real ou não”, mas com certeza nunca fui indiferente. E “Realidade” nunca foi muito importante para mim, de qualquer forma. Acho que era branco, não azul.
Tenho me sentido sozinho ultimamente, só que é um sozinho diferente. Tipo quando você fica preso por engano dentro de uma garrafa. Descontando a parte do vidro, tudo fica um pouco diferente: o jeito como você ouve e enxerga, o jeito como ouvem e enxergam você.
Como se eu estivesse vivenciando 2 lugares no mesmo tempo (não estou mais falando da garrafa) como se de alguma forma eu estivesse dentro e fora. Como um ator de teatro que se ve na platéia, e lembra de estar se vendo no palco. Como um livro que fala de um livro que comenta de um livro que conta sobre o livro. Como se eu estivesse escrevendo minha vida enquanto ela acontece, porém não sou eu.
Azul.
Como se, de alguma forma, em algum ponto minha mente convergisse com todas as mentes do mundo, só que eu não posso acessá-las, porque eu nem sei onde está a minha.
Branco.
É sufocante essa sensação de já saber o que vai acontecer. Você não sabe, mas é como se não conseguisse se lembrar. Porque o remorso vêm em dobro. A culpa vêm em dobro. A autocompaixão atinge níveis exorbitantes, e você continua sem agir, sem fazer nada, sem falar.
Azul.
Mas é justamente a autocompaixão, aquela que se disfarca de consequência, que dá início à bagunça, na medida que esconde os instrumentos para frear o ciclo.
Branco.
Essa solidão que eu sinto ultimamente, essa solidão diferente, é porque, derrepente, eu me toquei de que algo muito errado, muito curioso, havia ocorrido. Eu percebi que sentia falta de alguém. Olhei para a platéia e não me vi. Eu havia me abandonado.
Resolvi assumir meu lugar enquanto não volto. Espero não fazer nenhuma besteira, mas, bem, essa obra é minha mesmo.
Tenho 2 funções. 2 jeitos de perceber o mundo: o de dentro e o de fora. E não dá mais para optar por um deles. Me resta apenas fazê-lo.
Tudo o que eu tenho é a vida toda pela frente.
“Porque tendes medo de ficar só? Porque vos defrontai com vós mesmo, tal como sois, e descobris que sois vazio, embotado, estúpido, repulsivo, pecador, ansioso – uma entidade insignificante, sem originalidade. Enfrentai o fato; olhai-o e não fujais dele. Tão logo começais a fugir, começa a existir o medo.”