quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

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Tem pouco tempo, uma frase pertuba meus dias. Dessa perturbação entendi porque gosto dela, mas a vertigem que sinto, proveniente dessa pertubação, me obriga a ocupar minha cabeça com outras coisas. É uma forma de compreender, de absorver o significado aos poucos.

"Videmus nunc per speculum aenigmate"

"Agora vemos por espelho, na escuridão"

A princípio, só uma frase. Mas ela abarca não só um momento ou passagem de nossa vida. Não só a nossa vida e nossas outras vidas e os outros e suas vidas. Não apenas nossas filosofias, nossas crenças, nossa ciência, nossas relações, nossos sonhos ou nossos medos. Ela engloba tudo. Está no princípio de nossa visão, no exercício de nossa visão.

Vemos agora em enigma, por espelhos. Um grande quebra-cabeças de espelhos, uma máquina de espelhos móveis, que podem ou não se repetir, cuja abrangência é superior à nossa capacidade de compreender.
Somos nós um espelho, todos os outros são espelhos também. São todas as coisas. Cada grão de areia. Cada gato e cada cachorro. Cada coisa que existe reflete e é refletida por todas as outras coisas do Universo; e somam-se à essa reflexão maior todas as reflexões da mesma, e à sua própria, e já não existe a "imagem original" tampouco existe uma que seja imutável, ou que perdure um pouco mais que qualquer outra. Nada está desconectado da totalidade. Nada existe que, de forma unitária, possa atravessar a existência sem se relacionar com o todo e se modificar ao poucos, por inteiro, a cada instante.

Me atormenta saber que inverto essas imagens; de modo a escolher o que quero ver, e de fazer isso de forma depreciativa. Mentir e me convencer de que a mentira é a verdade e vice-versa.
Porque cada um desses reflexos, cada uma dessas imagens, reflete em mim uma única sensação: "Embotado".
É duro, porque isso a que chamamos sentimentos, a que chamamos emoções, são evocados pelo reflexo. Não nascemos sabendo o que é amor ou ódio ou alegria ou compaixão; descobrimos (ou despertamos) por reflexo, de forma gradual: intensa ou tênue; lenta e repetitiva ou fugaz e atordoadora. E vamos frimando esses Arquétipos de Sentimento aos poucos, em nossa enciclopédia pessoal, sempre revisitando esses arquétipos quando temos dúvidas ao julgar nossa vida. (e tudo o que se relaciona)

Dessa forma, tudo o que desperta em mim, desperta "embotado". Em todo o meu julgamento, o resultado é monótono, repititivo e tedioso. E essa marca, esse verniz cinza, essa sinistra peste se alastra, se reflete, por todo o meu ser. E tudo o que eu toco se corrompe, e tudo o que eu penso é violado. E a cada segundo, a cada hora, a cada dia, cada vez mais, eu me torno o próprio pecado. (e caso você compreenda mal, pecados NÃO são divertidos)

E não saber porque faço isso, se isso depende apenas de mim, se isso realmente pode ser mudado.. mas saber essas coisas não importa. Não é por aí. É agir e reagir. É ir consertando todas as deformações que se percebe, de forma que num dado momento, somando-se inumeráveis conversões, a luz explode de dentro, e o espelho se encontra mudado.

Então o meu reflexo ressoa por todo o espectro. E o Universo, na parte em que lhe cabe, muda também.

"Eu sempre fui eu; quer dizer, todos que disseram eu durante esse tempo - tempo que precedeu meu nascimento - não eram outros senão eu."

"Agora vemos por espelho, na escuridão; mas então veremos faces a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei como sou conhecido."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Secção

Um Homem seguro de si é um ente morto.”

Só posso observar-me em relação, porque a vida é toda de relação.”

Não posso existir sozinho.”

Só existo em relação com pessoas, coisas e idéias e, estudando minha relação com as pessoas e coisas exteriores, assim como com as interiores, começo a compreender a mim mesmo. Qualquer outra forma de compreensão é mera abstração e não posso estudar-me abstratamente; não sou uma entidade abstrata; por conseguinte, tenho de estudar-me na realidade concreta – assim como sou, não como desejo ser.”


A lembrança mais antiga que eu tenho é a de estar sendo carregado no colo de alguém, deitado entre os braços que me envolviam, entrando numa sala de uma maternidade. Como provavelmente, com essa idade, eu mal enxergava dois palmos à frente do meu nariz, provavelmente ela é falsa. O que me leva à segunda na escala de tempo, quando eu tinha pouco menos de 2 anos de idade e tinha recém operado a fimose, estava no colo de alguém, com uma barra-pirulito nas mãos, vermelha com estrias espiraladas na lateral, em azul.


Só isso podia representar todo o meu passado: sem saber se é real ou não, sempre dependendo das pessoas para ficar em pé, sendo mutilado e ganhando doces de segunda categoria enquanto assistia à tudo com indiferenca.

Mas é mentira. A Barra-Pirulito era muito boa sim. Aprendi a ficar em pé, a cair, me arrastar, rastejar, levantar. Acho que só nao aprendi a voar, nunca tentei. Também não fui mutilado.

Bom, ainda não tenho certeza quanto ao “real ou não”, mas com certeza nunca fui indiferente. E “Realidade” nunca foi muito importante para mim, de qualquer forma. Acho que era branco, não azul.


Tenho me sentido sozinho ultimamente, só que é um sozinho diferente. Tipo quando você fica preso por engano dentro de uma garrafa. Descontando a parte do vidro, tudo fica um pouco diferente: o jeito como você ouve e enxerga, o jeito como ouvem e enxergam você.

Como se eu estivesse vivenciando 2 lugares no mesmo tempo (não estou mais falando da garrafa) como se de alguma forma eu estivesse dentro e fora. Como um ator de teatro que se ve na platéia, e lembra de estar se vendo no palco. Como um livro que fala de um livro que comenta de um livro que conta sobre o livro. Como se eu estivesse escrevendo minha vida enquanto ela acontece, porém não sou eu.


Azul.


Como se, de alguma forma, em algum ponto minha mente convergisse com todas as mentes do mundo, só que eu não posso acessá-las, porque eu nem sei onde está a minha.


Branco.


É sufocante essa sensação de já saber o que vai acontecer. Você não sabe, mas é como se não conseguisse se lembrar. Porque o remorso vêm em dobro. A culpa vêm em dobro. A autocompaixão atinge níveis exorbitantes, e você continua sem agir, sem fazer nada, sem falar.


Azul.


Mas é justamente a autocompaixão, aquela que se disfarca de consequência, que dá início à bagunça, na medida que esconde os instrumentos para frear o ciclo.


Branco.


Essa solidão que eu sinto ultimamente, essa solidão diferente, é porque, derrepente, eu me toquei de que algo muito errado, muito curioso, havia ocorrido. Eu percebi que sentia falta de alguém. Olhei para a platéia e não me vi. Eu havia me abandonado.


Resolvi assumir meu lugar enquanto não volto. Espero não fazer nenhuma besteira, mas, bem, essa obra é minha mesmo.

Tenho 2 funções. 2 jeitos de perceber o mundo: o de dentro e o de fora. E não dá mais para optar por um deles. Me resta apenas fazê-lo.

Tudo o que eu tenho é a vida toda pela frente.


Porque tendes medo de ficar só? Porque vos defrontai com vós mesmo, tal como sois, e descobris que sois vazio, embotado, estúpido, repulsivo, pecador, ansioso – uma entidade insignificante, sem originalidade. Enfrentai o fato; olhai-o e não fujais dele. Tão logo começais a fugir, começa a existir o medo.”