Tem pouco tempo, uma frase pertuba meus dias. Dessa perturbação entendi porque gosto dela, mas a vertigem que sinto, proveniente dessa pertubação, me obriga a ocupar minha cabeça com outras coisas. É uma forma de compreender, de absorver o significado aos poucos.
"Videmus nunc per speculum aenigmate"
"Agora vemos por espelho, na escuridão"
A princípio, só uma frase. Mas ela abarca não só um momento ou passagem de nossa vida. Não só a nossa vida e nossas outras vidas e os outros e suas vidas. Não apenas nossas filosofias, nossas crenças, nossa ciência, nossas relações, nossos sonhos ou nossos medos. Ela engloba tudo. Está no princípio de nossa visão, no exercício de nossa visão.
Vemos agora em enigma, por espelhos. Um grande quebra-cabeças de espelhos, uma máquina de espelhos móveis, que podem ou não se repetir, cuja abrangência é superior à nossa capacidade de compreender.
Somos nós um espelho, todos os outros são espelhos também. São todas as coisas. Cada grão de areia. Cada gato e cada cachorro. Cada coisa que existe reflete e é refletida por todas as outras coisas do Universo; e somam-se à essa reflexão maior todas as reflexões da mesma, e à sua própria, e já não existe a "imagem original" tampouco existe uma que seja imutável, ou que perdure um pouco mais que qualquer outra. Nada está desconectado da totalidade. Nada existe que, de forma unitária, possa atravessar a existência sem se relacionar com o todo e se modificar ao poucos, por inteiro, a cada instante.
Me atormenta saber que inverto essas imagens; de modo a escolher o que quero ver, e de fazer isso de forma depreciativa. Mentir e me convencer de que a mentira é a verdade e vice-versa.
Porque cada um desses reflexos, cada uma dessas imagens, reflete em mim uma única sensação: "Embotado".
É duro, porque isso a que chamamos sentimentos, a que chamamos emoções, são evocados pelo reflexo. Não nascemos sabendo o que é amor ou ódio ou alegria ou compaixão; descobrimos (ou despertamos) por reflexo, de forma gradual: intensa ou tênue; lenta e repetitiva ou fugaz e atordoadora. E vamos frimando esses Arquétipos de Sentimento aos poucos, em nossa enciclopédia pessoal, sempre revisitando esses arquétipos quando temos dúvidas ao julgar nossa vida. (e tudo o que se relaciona)
Dessa forma, tudo o que desperta em mim, desperta "embotado". Em todo o meu julgamento, o resultado é monótono, repititivo e tedioso. E essa marca, esse verniz cinza, essa sinistra peste se alastra, se reflete, por todo o meu ser. E tudo o que eu toco se corrompe, e tudo o que eu penso é violado. E a cada segundo, a cada hora, a cada dia, cada vez mais, eu me torno o próprio pecado. (e caso você compreenda mal, pecados NÃO são divertidos)
E não saber porque faço isso, se isso depende apenas de mim, se isso realmente pode ser mudado.. mas saber essas coisas não importa. Não é por aí. É agir e reagir. É ir consertando todas as deformações que se percebe, de forma que num dado momento, somando-se inumeráveis conversões, a luz explode de dentro, e o espelho se encontra mudado.
Então o meu reflexo ressoa por todo o espectro. E o Universo, na parte em que lhe cabe, muda também.
"Eu sempre fui eu; quer dizer, todos que disseram eu durante esse tempo - tempo que precedeu meu nascimento - não eram outros senão eu."
"Agora vemos por espelho, na escuridão; mas então veremos faces a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei como sou conhecido."
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