quarta-feira, 3 de março de 2010

Ampulheta

A cada segundo eu estou em um tempo diferente.

Agora eu tenho 10 anos, e tenho o pensamento fixo numa pequena chave de plástico rosa, enquanto meu pai sabe por telefone que a mãe dele morreu. Ele senta no sofá, e olha pra tv uns 2 segundos antes de contar. O olhar dele está em lugar nenhum.

Agora eu tenho 19, e estou tentando reaprender a como se anda em pé. Estou tentando aprender a beber. Estou tentando aprender a resetar a minnnha memória. Estou aprendendo a como piorar uma situação.

Agora eu tenho 7, e estou aprendendo a encontrar os pontos cardeais. Nunca me perdi depois disso. Fui parar longe, mas perdido, perdido, não.

Agora tenho 25, e aminha cabeça fica jogando qualquer lembrança aleatória ( e eu tenho várias) na minha mente, tentando aprender a não viver o agora.

Agora tenho 25, e derrepente me dou conta que denovo eu sinto uma dor funda no peito, e denovo eu sinto frio, e denovo minha garganta fecha, e denovo eu quero chorar, e denovo eu quero quebrar algo, e mais uma vez, cada ano de minha vida se sincroniza, e essa, denovo, é aquela hora, aquela única hora, aquela hora que eu divido com todos os momentos da minha vida. Mais uma vez eu sou um só, por uma hora.

Agora eu tenho todas as minhas idades, e todas as pessoas que eu conheci tem todas as suas idades respectivas (seria um exercício engraçado começar a embaralha-las... anotarei para quando eu me sentir legal denovo) e eu vislumbro: que cada um desses seres que passaram pela minha vida, todos seguiram um caminho, e eu posso diferenciar cada época de cada um deles, por cada detalhe, e talvez até possa desenhar uma linha evolutiva.

Agora eu volto a ter 25, e não existem mais idades na minha mente. Apenas uma única imagem de cada uma dessas inumeras idades. E todas elas são as mesmas. Eu não mudei em nenhuma delas. Faço um último e desesperado esforço de mandar alguma coisa pra elas, algo que as faça sentir como eu me sinto agora, na esperança de ter uma sensação de nostalgia como confirmação de que eu consegui me dar um sinal. O cachorro late incessantemente, porque é um cachorro. E eu sei porque não obtive confirmação alguma. Porque eu lembro dessa sensação. E eu lembro de tê-la recusado.

Sinto uma imensa vontade de morrer.

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